Não sei exactamente quando começou. Talvez há dois anos. A maioria dos hábitos não começam, vamos simplesmente repetindo.
Todos os fins de semana em Viena incluíam uma visita ao Santos Bar.
Eu bebia um From Maria with Love.
O Patrick bebia um Oaxaca Old Fashioned.
Falávamos da prisão.
(pausa)
Da nossa prisão interior.
(riso) hihihi
Mas era curioso como, naquele lugar, entre um cocktail e outro, acabávamos sempre a falar do futuro. Um futuro que parecia ao mesmo tempo inevitável e completamente improvável. Falávamos dos nossos desejos, ou da suspeita de já não termos muitos. Falávamos de ser adultos e daquela estranha falta de vida, como se crescer fosse também perder uma certa capacidade de entusiasmo.
Tivemos muitas conversas tristes.
Tivemos, também, muitas conversas prósperas.
Como diria o Marante, "naquela mesa de bar" planeámos de tudo. E, entre uma hipótese e outra, apareciam aquelas constatações privadas. Às vezes as coisas pareciam-nos vazias. Mas havia qualquer coisa profundamente cheia no facto de estarmos ali. Na nossa companhia. No nosso ciclo de conversas. No nosso ciclo de visitas.
O Santos Bar fechou.
E agora vai ser um restaurante de bifes.
Não sei o que é mais absurdo: o Santos Bar transformar-se num restaurante de bifes ou nós irmos, regularmente, a um bar de cocktails.
O fim do bar transforma retrospectivamente um hábito em qualquer coisa. Num período. E, com isso, aparece a pergunta sobre o que foi aquele período.
Eu sei que é uma casualidade.
Mas, quando penso no Santos Bar a fechar, penso em nós a irmos embora.
Só não sei de onde.
ENG
I don’t know exactly when it started. Maybe two years ago. Most habits don’t really begin. We simply keep repeating them.
Every weekend in Vienna included a visit to the Santos Bar.
I drank a From Maria with Love.
Patrick drank an Oaxaca Old Fashioned.
We talked about prison.
(pause)
Our inner prison.
(laughter) hihihi
But it was curious how, in that place, between one cocktail and the next, we always ended up talking about the future. A future that seemed both inevitable and completely improbable. We talked about our desires, or the suspicion that we didn’t have many left. We talked about being adults and that strange lack of life, as if growing up also meant losing a certain capacity for enthusiasm.
We had many sad conversations.
We also had many fruitful ones.
As Marante would say, “naquela mesa de bar” ("at that bar table"), we planned everything. And, between one possibility and another, we would get to those private thoughts. Sometimes things seemed empty to us. But there was something deeply full about the fact that we were there. In each other’s company. In the cycle of our conversations. In the cycle of our visits.
The Santos Bar closed.
And now it’s going to be a steakhouse.
I don’t know what is more absurd: the Santos Bar becoming a steakhouse, or the fact that we regularly went to a cocktail bar.
The closing of the bar retrospectively turns a habit into something. Into a period. And with that comes the question of what that period was.
I know it is a coincidence.
But when I think about the Santos Bar closing, I think about us leaving.
I just don’t know from where.